Geopolítica

A invasão como arma: como Sánchez humilhou Espanha com chinelos

Fronteira de Ceuta
72 milPessoas invadiram Ceuta em horas
35 milMortos no Mediterrâneo desde 2014
2002 → 2026De Perejil aos chinelos de Sánchez
Costuma dizer-se que uma imagem vale mais do que mil palavras. O que se passou em Ceuta, no dia 30 de Julho, com a vaga de milhares de marroquinos a tomarem, em poucas horas, território espanhol, ficará como uma dessas imagens.
Chamar-lhes “migrantes” é um eufemismo impróprio. Foi, na prática, uma invasão orquestrada de 72 mil pessoas. O mesmo jogo político afogou também mais de uma centena de pessoas nas águas que separam Marrocos de Espanha. Ninguém, até hoje, respondeu por elas. Porque é que as elites europeias e a esquerda continuam caladas perante uma tragédia destas? Serão menos importantes por serem consequência das medidas de um governo socialista?

Ceuta começa no Saara Ocidental

A crise de Ceuta nasce no Norte de África, marcado por quase cinco décadas de conflito entre Marrocos e a Frente Polisário que defende a independência do Saara Ocidental com o apoio político e militar da Argélia. Ao invés, Marrocos considera esse território como parte integrante da sua soberania. É neste caldeirão de conflitos, com Espanha a querer agradar a gregos e a troianos, que Pedro Sánchez transformou Ceuta na maior humilhação fronteiriça da democracia espanhola. Viu o seu país ser invadido por milhares de pessoas, sem armas e apenas de chinelos, usadas por Rabat como projécteis de uma guerra sem balas.

Oportunista em La Moncloa

Sánchez é um político oportunista, sem escrúpulos, que salta de um tabuleiro para o outro como quem muda de camisa. Cada pirueta no Magrebe aperta as correntes que o prendem às suas próprias contradições.

O precedente de 2021

Em 2021, Sánchez autoriza o acolhimento do líder da Frente Polisário ignorando o elevado risco estratégico para Espanha. A resposta de Marrocos não tarda. Dez mil pessoas, entre marroquinos e refugiados de países subsaarianos, invadem Ceuta. É o ensaio geral do que, cinco anos depois, se tornará uma catástrofe.

Refém do Magreb

Em Março de 2022, Sánchez alterou a histórica posição de neutralidade de Espanha sobre o Saara Ocidental e inclinou-se para Marrocos, apoiando o plano deste país, traçado em 2007, de autonomia para o território, mas sem independência. Argel considerou este movimento da diplomacia de Sánchez uma quebra da confiança bilateral. A contrapartida de Marrocos por este apoio político foi blindar as fronteiras de Ceuta e Melilla, transformando dois mil refugiados subsaarianos, fugidos do massacre no Darfur e com direito reconhecido a protecção internacional, em moeda de troca de um acordo entre Estados.
“No Monte Gurugú viram a comida desaparecer nas mãos dos homens de Rabat e, dias depois, as próprias tendas a arder, com a água que lhes restava cortada como último aviso.”Relato dos acontecimentos em Melilla, Março de 2022
No Monte Gurugú, onde há meses se escondiam à espera de uma brecha para Melilla, viram a comida desaparecer nas mãos dos homens de Rabat e, dias depois, as próprias tendas a arder, com a água que lhes restava cortada como último aviso antes de serem empurrados contra uma fronteira onde encontraram apenas gás lacrimogéneo. O pânico que se seguiu esmagou trinta e sete pessoas contra os portões de um pátio sem saída. Horas depois, Sánchez elogiou o “trabalho” das forças de segurança e chamou-lhe operação “bem resolvida”. Para o governo espanhol, o uso brutal da força foi proporcional a uma “invasão violenta” de refugiados armados com… paus e ganchos.

A lei que abriu a porta

Passaram quatro anos até ao próximo golpe. No dia 8 de Julho de 2026, o Supremo Tribunal espanhol acendeu o rastilho que Rabat, sabiamente, se encarregou de aproveitar. Reinterpretou a Lei de Estrangeiros e quem chegasse a Ceuta ou Melilla por mar, sem forçar barreiras, deixava de poder ser devolvido de imediato à procedência. Enquanto os juízes discutiam princípios jurídicos, Marrocos estudava uma oportunidade.

O preço do gás

Sánchez está agrilhoado entre dois países. Precisa da Argélia no combate ao terrorismo jihadista e para garantir a estabilidade energética. Depende de Marrocos para conter a pressão migratória e evitar que Ceuta e Melilla, territórios que Rabat considera ocupados, se transformem no detonador de uma crise militar. Poucos dias após a decisão do Supremo, a 20 de Julho, Pedro Sánchez seguiu para Argel, a fim de normalizar as relações deterioradas desde 2022. Na agenda levava a cooperação política. Na cabeça, só o fornecimento estratégico de gás natural. Confrontado com a escolha entre o gás e a fronteira, Sánchez agiu sem hesitar. Privilegiou o gás, transformando o Mediterrâneo num cemitério de decisões políticas irresponsáveis. O gás perdura, os mortos esquecem-se.

O teste de Perejil

Recuemos a Julho de 2002. Doze militares marroquinos desembarcaram no pequeno ilhéu espanhol de Perejil e hastearam a bandeira de Marrocos. Seis dias depois, comandos espanhóis helitransportados recuperaram o ilhéu numa operação fulminante, sem disparar um único tiro. Vinte e quatro anos depois, Rabat voltou a testar Madrid, mas em vez de uma dúzia de militares, lançou milhares de pessoas de chinelos contra a fronteira. A guerra mudou de campo de batalha. O alvo deixou de ser um rochedo desabitado e passou a ser a própria capacidade de Espanha para defender a sua soberania.

Avisos ignorados

A invasão de Ceuta não surpreende quem devia antecipar ameaças. Semanas antes, o Centro Nacional de Inteligência espanhol regista um aumento anormal de actividade nas redes sociais marroquinas, a mobilizar jovens para aproveitar o vazio legal aberto pelo Supremo Tribunal. Sánchez finge não ver e o Executivo ignora os avisos. Quando a fronteira colapsa, o governo nega tê-los recebido. A mentira dura pouco porque Marrocos confirma que também avisara Madrid. Sánchez sabe, mas prefere o silêncio.

Ameaça terrorista

A polícia identificou, entre milhares de pessoas que invadiram Ceuta, jihadistas já antes deportados para Marrocos. Ceuta tornou-se, também, uma ameaça à segurança nacional com fronteiras que ninguém controla e com um Estado estrategicamente passivo. Anos de cálculo político sem princípios levaram a que isto acontecesse.

O cemitério e os culpados

O Mediterrâneo tornou-se o maior cemitério desta política e espelha a dimensão do crime que tem sido cometido ao longo dos anos. Estimativas recentes apontam, desde 2014, para mais de 35 mil mortos durante as travessias. Qual a responsabilidade de Sánchez e das políticas da esquerda, desde a extrema-esquerda aos falsos progressistas? Conseguem dormir com a consciência tranquila? Sobre a responsabilidade de Merkel e da União Europeia trataremos posteriormente.

A rota portuguesa

Portugal assume uma posição sem sal, esquecendo que a nossa fronteira está exposta aos mesmos perigos. Desde 2019 que já sofremos desembarques de migrantes no Algarve. Foi um aviso. A onda vai voltar, maior. Só não sabemos quando. As nefastas políticas socialistas de portas escancaradas dos Governos de Costa e a passividade do actual governo são um convite ao desastre. Um Estado que não controla a sua fronteira está à mercê de quem a quiser usar como arma. Precisamos de alguém que seja responsável, que nos governe, que tenha a coragem suficiente para enfrentar estas questões sem dogmas ideológicos e que trave a erosão silenciosa da nossa soberania. Se queremos hastear a bandeira nacional e cantar o hino em qualquer parte do nosso território temos de acordar antes que seja tarde.

Autoria

The Conservative Nexus.