Cultura e Sociedade

Farmar Aura: Uma Civilização Que Aplaude a Própria Queda

 
Farmar Aura
13MCandidatos ao Gaokao chinês
2 → 6Universidades chinesas no Top 100 mundial
1930 → 2026De Ortega y Gasset aos dias de hoje
Reparemos no que se passa à nossa volta. Numa praça qualquer, uma coluna portátil com o volume máximo e dezenas de adolescentes a repetirem o mesmo gesto, “six seven”, vinte, trinta vezes seguidas, até sair perfeito para a câmara. Chamam-lhe “farmar aura”.
Como pode uma sociedade multiplicar estradas, universidades e fábricas e ir perdendo, ao mesmo tempo e em silêncio, a noção daquilo que a sustenta? É essa, no fundo, a preocupação que atravessa ‘A Rebelião das Massas’, de Ortega y Gasset, publicado em 1930, a olhar para uma Europa tecnologicamente triunfante. Toynbee, décadas depois, chegou a uma conclusão parecida, as civilizações raramente morrem por invasão. Segundo ele, morrem quando perdem a fibra moral que as sustenta e deixam de saber responder aos desafios do seu tempo. Um enfraquecimento que, no fundo, começa sempre em casa, no que cada geração ensina, ou deixa de ensinar, à geração seguinte. Se isto soar exagerado para descrever uma dança de adolescentes numa praça, talvez seja porque ainda não se olhou para o gesto com a atenção que ele exige. Porque isto nunca foi sobre os miúdos. É sobre quem os criou.

O aplauso antes do mérito

Durante séculos, o respeito era consequência de alguma coisa, fosse o esforço do aluno ou a paciência do artesão a talhar pedra bruta. Existia uma distância a percorrer entre o mérito e o reconhecimento. Essa ordem foi invertida com uma naturalidade que devia assustar mais gente do que assusta. Primeiro, fabrica-se a fama. Só depois, se sobrar tempo e disposição, é que se vai à procura de alguma coisa que a sustente. A expressão “Farmar” deriva dos videojogos, significa repetir mecanicamente uma acção até acumular pontos. Sem dom nem inteligência, apenas insistência dentro de um sistema desenhado para premiar. Quando essa lógica sai do ecrã e entra na própria identidade de um jovem, o carácter passa a funcionar como um marcador de pontuação, um “gosto” de cada vez. Trocou-se a ambição de ser admirado pela procura de ser visto.

Um palco que não escolheram

Culpar os adolescentes seria o caminho mais cómodo e também o mais cobarde. Nenhum deles desenhou o algoritmo e nenhum escolheu nascer rodeado de ecrãs antes de saber falar. Receberam um cenário montado pelos pais que preferem a mesa de jantar com telemóveis ligados e televisão em fundo permanente.
“Aqueles jovens não estão a inventar nada. Estão, com uma precisão implacável, a devolver-nos exactamente aquilo que lhes ensinámos a valorizar.”The Conservative Nexus
As crianças raramente inventam os valores da sua época. Limitam-se a repeti-los, com uma franqueza quase indecente. É por isso que “farmar aura” incomoda tanta gente. Expõe muito mais do que jovens ridículos, a fazerem gestos ridículos como “six seven”. Na verdade, amplificam e devolvem o retrato fiel daquilo em que a nossa própria cultura se converteu. Por trás desse cenário há também uma indústria concreta, feita de plataformas montadas por equipas inteiras de especialistas em comportamento humano, contratados com o único fim de prender a atenção do utilizador o máximo de tempo possível e nunca a largar. Os pais, chegados a casa e esgotados do trabalho, entram numa disputa contra um sistema global que gasta milhares de milhões de dólares justamente para vencer esse confronto desigual. Para perderem em definitivo essa batalha, os pais só precisam de desistir de a travar.

Porque é que a escola já não exige?

A escola, na sua essência, nunca existiu para fabricar mão-de-obra dócil. Na sua missão genuína, existe para formar cidadãos capazes de separar o duradouro do descartável. Isso não se transmite com afecto vazio. Clama por disciplina e pede exigência. Pergunte-se a qualquer cirurgião, a qualquer engenheiro, se a sua competência nasceu do conforto. Ao longo dos últimos anos, a ideologia identitária e woke foi substituindo a autoridade pela ideia de que toda a exigência seria uma forma de opressão. O mérito começou a ser visto com desconfiança e o facilitismo foi ganhando espaço. O resultado não surpreende. A fama passou a compensar mais depressa do que o estudo. A popularidade tomou o espaço do saber e a escola perdeu esta guerra cultural sem sequer perceber que estava a combatê-la.

O contraste que vem do Oriente

Enquanto por cá se celebra quem “farma” e o “six seven”, do outro lado do globo celebra-se quem resolve mais equações. O Gaokao chinês, o exame de acesso ao ensino superior mais concorrido do planeta, tem mais de treze milhões de candidatos a disputarem vagas por mérito puro. Há duas décadas, a China tinha apenas duas ou três universidades entre as cem melhores do mundo. Hoje coloca seis no top 100 global, fruto de uma cultura que ainda trata a disciplina como virtude a cultivar e não como fraqueza a corrigir. Nos Estados Unidos discute-se, a sério, a proibição da importação de robots humanóides da China, por representarem, dizem, “riscos inaceitáveis” para a segurança nacional. Por cá, discute-se se um tanque de água é uma piscina. É a distância entre um país a discutir o futuro e um país a discutir trapalhadas. E essa distância nasce da mesma crença que separa quem investe no esforço prolongado de quem se contenta com a exposição instantânea. Só o primeiro forma um adulto capaz. Um país torna-se forte quando consegue formar homens e mulheres capazes de usar a tecnologia com prudência, ao serviço de algo maior do que o próprio umbigo. É nessa passagem de testemunho entre gerações, de pais e professores para filhos e alunos, que um conjunto de pessoas se transforma num povo, deixando de ser apenas uma população a ocupar território.

O que fica, quando a música pára

A decadência não se corrige por generosidade do acaso. Precisa de famílias que voltem a marcar limites e que não peçam desculpa por fazê-lo. Tal como um povo capaz de voltar a orgulhar-se do próprio esforço e da própria herança, em vez de os enterrar debaixo de um pedido de desculpas permanente. Voltemos àquela praça, com os adolescentes, a coluna com o som no máximo e os gestos repetidos. Aqueles jovens não estão a inventar nada. Estão, com uma precisão implacável, a devolver-nos exactamente aquilo que lhes ensinámos a valorizar. Sem filtro, mostram o rosto verdadeiro de quem os educou. E é isso, muito mais do que a dança ou a música que sai da coluna, que devia doer. Reconhecer, sem eufemismos, que esta geração não caiu do céu já formatada para o vazio e talhada para inútil. Fomos nós que a formámos, ao longo de anos em que preferimos sempre o conforto de não exigir nem de agir. Uma lei não vai corrigir nada por decreto. A vergonha de olhar para essa praça e admitir a autoria, essa sim, ainda pode mudar o rumo das coisas, aliada à consciência da manipulação diária que os sucessivos governos têm recorrentemente feito no sentido do embrutecimento da população. A luz vai-se apagando, lentamente, quando os adultos deixam de ter estômago para dizer não. Apaga-se devagarinho, do mesmo jeito com que se perde um hábito. E é essa mesma luz que hoje vemos apagar-se diante de nós, no farmar aura e no six seven. Ninguém se levanta para a ir acender. Ninguém, sequer, repara que ela já não está lá. Fica só o brilho frio do ecrã, a substituir tudo aquilo a que um dia chamámos civilização.

Autoria

The Conservative Nexus.