O colapso do multiculturalismo europeu

Sociedade

O colapso do multiculturalismo europeu e o preço da rendição ideológica de Merkel, a lição que Portugal teima em aprender

Mário Diniz | 8 minutos de leitura

Anda por aí um mantra repetido até à exaustão, Portugal precisa de imigração para sobreviver. Políticos da esquerda e da extrema-esquerda, jornalistas militantes, comentadores de agenda e académicos bem-pensantes repetem esta ideia como se fosse um dogma. Dizem que, sem estrangeiros, não há quem trabalhe, a Segurança Social colapsa e a demografia precisa de reforço externo. Mas poucos se dão ao trabalho de distinguir entre o fenómeno da imigração que é real e historicamente comum e o modelo ideológico do multiculturalismo que é uma forma particular e controversa de lidar com essa diversidade.

Uma distinção que poucos fazem

Uma coisa é ter imigração, outra é abraçar o multiculturalismo como doutrina oficial. Imigração significa o movimento de pessoas entre países por razões de trabalho, segurança ou vida familiar. Já o multiculturalismo é uma ideologia de gestão cultural que defende que os imigrantes devem manter intactos os seus costumes, línguas e códigos culturais mesmo quando estes colidem com os valores e leis do país anfitrião.

A crítica é, portanto, dirigida à forma como o multiculturalismo institucionalizado desvaloriza a cultura do país de acolhimento, relativizando os valores centrais como a igualdade perante a lei, a liberdade de expressão e os direitos das mulheres. Não se trata de excluir pessoas por serem estrangeiras, mas de rejeitar políticas que promovem a fragmentação social em vez da coesão nacional, consequência directa de decisores políticos que obedeceram servilmente a Bruxelas a troco de um emprego muito bem remunerado.

Em Portugal, criticar a imigração descontrolada ou questionar os efeitos do multiculturalismo é quase um tabu. Estardalhaçam com os rótulos da praxe. Xenofobia, racismo e “fascismo disfarçado”. Como se defender fronteiras, identidade, língua e regras fosse crime de pensamento. Francamente, alguém tem de dizer o óbvio. Isto não está a funcionar. Ponto.

Portugal a encolher

A população portuguesa está a encolher, o país envelhece, os laços sociais desfazem-se e a culpa não é da “falta de diversidade”.

Em 2024, nasceram 84.642 bebés de mães residentes em Portugal, uma quebra de 1,2% face a 2023. Um terço destas crianças são filhos de mulheres nascidas fora do país. A taxa de fecundidade mantém-se nos 1,4 filhos por mulher, muito aquém dos 2,1 necessários para garantir a substituição geracional sem depender da imigração.

Chamam-lhe recuperação demográfica, mas Portugal deixou de gerar o seu próprio futuro e passou a importá-lo.

Entretanto, as aldeias esvaziam-se, a juventude emigra e os idosos vivem isolados. Portugal está a morrer de dentro para fora.

Quando o multiculturalismo cria fragmentação

E aqui entra o multiculturalismo. Na teoria parece tolerante. Na prática cria guetos culturais, identidades paralelas e recusa a integração. A imigração deixa de ser oportunidade para se tornar fragmentação.

Vemos isto nos bairros onde já quase não se fala português, escolas onde os professores lutam para manter um currículo coerente enquanto se tentam adaptar a dezenas de contextos linguísticos e culturais diferentes, comunidades onde as leis nacionais cedem perante códigos culturais próprios. Segundo o relatório da GREVIO, grupo de peritos do Conselho da Europa para a luta contra a violência contra as mulheres, Portugal já apresenta sinais claros de práticas tradicionais nocivas em comunidades imigrantes, incluindo “casos de mutilação genital feminina e casamentos forçados”.

Estas situações, diz o relatório, exigem uma resposta mais estruturada do Estado que até agora tem falhado na legislação e na formação dos profissionais para identificar, apoiar e proteger as vítimas destas formas de violência.

Esta é mais uma das consequências do multiculturalismo mal gerido.

Há uma ideia romântica de que o multiculturalismo é sinónimo de tolerância e harmonia, mas a verdade custa e deve ser dita. O multiculturalismo não trouxe mais coesão, trouxe mais divisão. Não promoveu a cidadania, promoveu clientelismo étnico e tráfico humano.

O país abdica do que é, para agradar às agendas externas e não sobrevive, dissolve-se.

A lição alemã: da confissão ao colapso

Em 2010, Angela Merkel admitiu “O multiculturalismo falhou completamente” reconhecendo que permitir culturas paralelas dentro do território alemão estava a corroer os fundamentos do Estado. Disse, sem rodeios, que se tinha exigido demasiado pouco aos imigrantes, que deveriam aprender alemão e integrar-se para aproveitarem as oportunidades. A prioridade, reforçou, deveria de ter sido dada à formação de cidadãos alemães em vez de depender de mão-de-obra externa.

“O multiculturalismo falhou completamente.” Angela Merkel, 2010

Contudo, em 2015, Merkel abriu as portas da Alemanha e, por extensão, da Europa a mais de um milhão de refugiados e imigrantes. Para os conservadores, este gesto foi tudo menos coerente, foi uma rendição ideológica. Uma decisão motivada por um impulso moralista, desligado das consequências reais para a segurança, identidade e estabilidade das nações europeias. Merkel, símbolo da racionalidade germânica, cedeu a um voluntarismo emocional típico do progressismo europeu que troca o dever com os cidadãos por causas obscuras.

As consequências não se fizeram esperar. Explosão nos sistemas sociais, tensão nas escolas, aumento da criminalidade e o crescimento de movimentos anti-imigração por toda a Europa. Merkel tentou corrigir o rumo e, em 2018, endureceu as regras de asilo e apoiou as deportações. Mas o estrago irreversível já estava feito.

A direita conservadora não rejeita a imigração, rejeita a imigração sem critério, sem exigência de assimilação e feita à revelia dos cidadãos.

O preço da equidade perdida

Países como França, Suécia e Reino Unido seguiram a mesma cartilha. Hoje vivem com as consequências, as infames No-Go Zones, bairros onde a polícia não entra, onde a autoridade do Estado se evaporou.

E Portugal? Vai no mesmo caminho com um sorriso nos lábios e olhos bem fechados.

Mas a verdade é dura, há famílias portuguesas que ficam de fora dos apoios sociais porque ganham 20 euros acima do limiar. Já outras, recém-chegadas, têm habitação garantida, subsídios e isenção de taxas, tudo no pacote de boas-vindas.

Aqui não se trata de punir imigrantes, trata-se de exigir equidade. Quem trabalha e contribui há décadas para este país é ultrapassado por políticas para agradar a Bruxelas e às urnas.

Em nome da “inclusão”, ensina-se menos história nacional, esquece-se o hino nacional e evita-se exibir a bandeira. As escolas relativizam tradições e há relatos de que os símbolos católicos são retirados das paredes porque a maioria dos alunos não professa esta religião. A própria ideia de “ser português” tornou-se controversa.

O que Portugal precisa

Abrir as portas sem critérios é o suicídio cultural e social. O que precisamos é de uma imigração baseada no mérito. Com regras claras. Exame de língua portuguesa. Registo criminal limpo. Contrato de trabalho válido. Prova de integração e não apenas “residência automática” ou “regularizações em massa”.

O multiculturalismo é, além de uma política falhada, uma ameaça real à coesão e identidades nacionais. Vende-se como tolerância, mas semeia divisão. Fala em justiça, mas impõe privilégios. Disfarça-se de modernidade, mas desestrutura um povo com história comum, língua partilhada e um futuro em construção.

Portugal ainda pode minimizar esta deriva se houver coragem e liderança com verdade.

Um país não é um corredor de passagem nem uma folha em branco onde se escreve qualquer coisa. Um país é um lar. Portugal é uma pátria e merece ser tratado como tal.

Se não tivermos coragem de o dizer agora, o preço será pago pelas próximas gerações.

Afinal, como foi escrito no início, a verdade é dura e está na hora de a encarar.

Nota

Este texto foi publicado no Semanário O Diabo.