Infelizmente

Política

Infelizmente

The Conservative Nexus | 6 minutos de leitura

Uma deputada eleita pelo PCP lamentou o desaparecimento da União Soviética. “A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo.” Poucos dias depois, quase ninguém falava da frase. O ciclo noticioso avançou e o assunto desapareceu. Mas é precisamente assim que a memória se desgasta. Não é preciso defender explicitamente um regime para o relativizar. Muitas vezes basta um sentimento de nostalgia.

O que a deputada chama de extraordinário

Entre os anos 30 e o início da década de 1950 do século passado, milhões de pessoas passaram pelo sistema de campos que Estaline consolidou. O Gulag foi um instrumento central de poder, mantendo uma sociedade inteira submissa através do medo, do trabalho forçado e do silêncio.

Espalhados pela Sibéria e pela Ásia Central, os campos e colónias penais tornaram-se parte integrante da máquina soviética. Segundo estimativas documentadas as mortes oscilam entre 1,2 e 1,7 milhões e muitos desapareceram sem nome, sem julgamento e sem regresso.

O Gulag foi uma das formas lentas de matar. Havia outras, mais rápidas.

Poucos anos antes, entre 1932 e 1933, o regime soviético confiscou grãos, sementes e reservas alimentares na Ucrânia. Milhares de camponeses tentaram abandonar as aldeias em busca de comida, mas encontraram estradas bloqueadas e postos de controlo montados pelo próprio Estado. Enquanto isso, comboios carregados de trigo continuavam a seguir para exportação.

Milhões morreram enquanto o regime negava aquilo que estava a acontecer. Só na Ucrânia, as estimativas apontam para entre 3,5 e 5 milhões de vítimas. Para muitos historiadores, o Holodomor foi uma política deliberada de destruição aplicada contra um povo inteiro.

Destruir pelo silêncio e pela fome era eficaz. Mas o regime não dispensou métodos mais directos.

Durante o Grande Terror de 1937–1938, os arquivos soviéticos registam cerca de 682 mil execuções.

As confissões eram frequentemente obtidas através de tortura física e psicológica, privação de sono e ameaças dirigidas às famílias. Muitos assinavam declarações absurdas depois de dias ou semanas de interrogatórios. Pouco depois eram executados e enterrados em valas comuns, longe de qualquer julgamento justo ou memória pública.

Mas o terror individual não chegava. O regime percebeu, cedo, que era mais eficiente perseguir povos inteiros.

Chechenos, tártaros da Crimeia, alemães do Volga e coreanos soviéticos foram arrancados das suas casas e enviados para regiões remotas da União Soviética.

Transportaram famílias inteiras em vagões de carga durante dias e semanas, frequentemente sem aquecimento, comida suficiente ou assistência médica. Centenas de milhares morreram ao longo das viagens. Outros morreram nos anos de exílio forçado que se seguiram.

Na primavera de 1940, milhares de oficiais e civis polacos foram executados pela NKVD na floresta de Katyn e noutros locais. Entre as vítimas estavam militares, médicos, engenheiros, professores, advogados, sacerdotes e membros da administração pública polaca. Só em 1990, já numa fase de desagregação do regime soviético, Mikhail Gorbachev reconheceu formalmente a responsabilidade soviética nas execuções de Katyn.

A violência física era apenas uma das ferramentas. Havia também o apagar sistemático das referências que tornam um povo reconhecível a si próprio.

Ao longo das primeiras décadas do regime, foram presos, executados ou enviados para campos de trabalho milhares de líderes religiosos.

A Igreja Ortodoxa Russa perdeu grande parte do seu clero activo entre 1917 e 1939. Muitas igrejas foram encerradas, destruídas ou convertidas para outros usos. O objectivo era formar um cidadão desligado das suas referências tradicionais e totalmente subordinado à autoridade do Estado.

A violência era entendida como parte de um projecto ideológico maior. É também por isso que, décadas depois do colapso da União Soviética, ainda existem discursos públicos que tratam esse regime com nostalgia.

Mortos que a Europa esqueceu

O regime nazi ocupa, de forma inteiramente justificada, um lugar central na memória europeia como símbolo máximo de destruição e barbárie. Seria impensável ouvir um deputado afirmar, num parlamento democrático, que o Terceiro Reich foi “extraordinário para o povo alemão”. Uma declaração desse género provocaria indignação imediata e provavelmente marcaria o fim da carreira política de quem a proferisse.

No caso da União Soviética, a reacção foi diferente. A frase foi dita no parlamento, houve uns zunzuns e nada mais. Os media participaram na amnésia global.

Mas a verdade dos factos não se vende.

O Livro Negro do Comunismo aponta para perto de 100 milhões o número de vítimas associadas aos regimes comunistas do século XX. O esquecimento tem uma dimensão trágica.

O julgamento que o mundo nunca quis fazer

Depois da Segunda Guerra Mundial, os crimes do nazismo foram expostos diante do mundo nos julgamentos de Nuremberga. Houve testemunhos públicos, condenações internacionais e um longo processo de confronto histórico com aquilo que tinha acontecido. Ao longo das décadas seguintes, o Holocausto tornou-se uma referência central da memória europeia e o negacionismo passou a ser criminalizado em vários países.

A União Soviética colapsou em 1991 sem tribunal internacional comparável, sem condenação política proporcional à escala dos crimes cometidos e sem um verdadeiro consenso internacional sobre a forma de lidar com esse legado histórico.

A memória do PCP

O Estado Novo foi uma ditadura marcada pela censura, pela repressão política e pela perseguição de opositores. A PIDE, as prisões políticas, o exílio forçado e a limitação das liberdades fazem parte dessa memória histórica e não devem ser relativizados nem esquecidos.

É precisamente por essa razão que a nostalgia em relação ao regime soviético gera uma contradição difícil de ignorar. Um partido que condena, legitimamente, qualquer tentativa de romantizar a ditadura portuguesa acaba por tratar com indulgência um regime responsável por perseguições, deportações, fome organizada e repressão em larga escala.

O que continua a suscitar polémica é a normalização de discursos que descrevem como “extraordinário” um regime associado a algumas das maiores tragédias políticas e humanas do século XX.

“A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo.” Deputada eleita pelo PCP

A herança amarga do esquecimento

Durante décadas, as famílias das vítimas de Katyn viveram entre o luto e a negação oficial.

Milhões morreram de fome na Ucrânia enquanto o regime soviético negava a tragédia. Décadas mais tarde, vários países reconheceram a fome provocada como genocídio, mas o debate continua longe de reunir consenso internacional.

É neste vazio que frases como a da deputada ainda encontram espaço público sem o grau de reprovação que muitos considerariam inevitável noutros casos históricos.

O mínimo que a deputada deve às vítimas, às suas famílias e aos portugueses que a elegeram sem imaginar o que iam ouvir era um pedido de desculpas público. Não houve, infelizmente.

Nota

Este texto foi publicado no Semanário O Diabo.