Economia
Socialismo, o fim de uma triste ilusão
No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a Europa viu nascer, entre as cinzas da destruição, uma promessa de redenção. Muitos partidos, imbuídos dos ideais do chamado socialismo europeu, propuseram um caminho diferente. Um Estado forte que protegeria os seus, garantiria direitos fundamentais e resgataria a dignidade dos que mais sofreram. E durante algum tempo, essa promessa foi cumprida.
A promessa do Estado-providência
O projecto do Estado-providência europeu, inspirado por forças como o SPD na Alemanha, o Labour no Reino Unido ou o PS em França, foi responsável por feitos notáveis. Saíram milhões da pobreza. A saúde e a educação tornaram-se acessíveis. Consolidou-se a estabilidade social. Durante décadas, parecia que era possível o equilíbrio entre justiça social e liberdade individual. Mas, como toda a utopia, esta também se revelou incapaz de resistir ao tempo sem se corromper. O que era uma ferramenta de libertação foi-se tornando, subtilmente, num mecanismo de dependência. A partir das décadas de 80 e 90, vozes lúcidas como Pierre Rosanvallon, historiador e sociólogo francês, começaram a denunciar as fracturas internas do modelo. O Estado que prometia dar tudo passou a querer decidir tudo.
A burocracia derrapou, a produtividade estagnou e o mérito começou a desaparecer sob o peso da conformidade. A liberdade, esse bem tão frágil, cedeu lugar à tutela. A ambição individual foi substituída por uma teia de “segurança” que, ironicamente, aprisiona. Solzhenitsyn alertou, “quando se perde a liberdade interior, até mesmo a segurança mais generosa se transforma em prisão”, sobretudo quando essa segurança depende da obediência ao poder que a concede.
A fractura do modelo
Hoje, o cidadão já não é o protagonista da sua vida. É um número numa base de dados, um destinatário de promessas que raramente se cumprem. O Estado omnipresente tornou-se um árbitro que intervém em todas as esferas da sua existência, ditando as regras, travando a iniciativa e sufocando as liberdades.
Cultivaram a dependência porque um cidadão dependente vota mais facilmente em quem lhe dá o balde da ração, mesmo que esse mesmo Estado lhe corte as asas. Maquiavel antecipou este paradoxo com uma clareza brutal, “Se os porcos pudessem votar, o homem que trouxesse o balde de comida seria sempre eleito, não importando quando porcos tivesse abatido.”
E quando o dinheiro falta, a máscara cai. A promessa transforma-se em bancarrota e a solidariedade em controlo.
O custo humano desta visão está nas finanças públicas e na erosão do carácter. Num sistema que desvaloriza o esforço e pune o risco, os cidadãos perdem a vontade de se superar. A sociedade afunda-se numa mediocridade confortável onde todos têm o mínimo, mas poucos têm ambição.
E, paradoxalmente, o discurso político que sustenta este modelo assume um tom cada vez mais moralista e intolerante. Quem ousa defender a liberdade, a responsabilidade individual ou o empreendedorismo é rapidamente acusado de radical. Como se querer que cada um construa o seu próprio caminho fosse um pecado. Mas os números não mentem. Onde o Estado se expandiu sem limites, a economia estagna, a dívida cresce e os jovens, esses que deveriam de sonhar alto, vivem com menos expectativas do que os seus pais. Em vez de mobilidade ascendente, assistimos à manutenção da pobreza sob o disfarce da protecção. E, como sempre, são os mais frágeis que pagam a factura.
A verdadeira justiça não se constrói com dependência, mas com dignidade. E a dignidade começa com a liberdade de pensar, de trabalhar, de falhar, de recomeçar. Um Estado justo deve amparar os que caem e não aprisionar os que querem voar.
O caso português
Em Portugal, os eleitores rejeitaram esta ilusão prolongada. O que está em causa já não é apenas a eficiência do modelo, mas a sua própria legitimidade moral. Winston Churchill alertou com o seu habitual sarcasmo que o socialismo, quando perde o contacto com a realidade económica, tende a tornar-se, “uma filosofia do fracasso, o credo da ignorância e o evangelho da inveja”. Não se trata de rejeitar todo o modelo social europeu, mas de reconhecer que, sem reformas e responsabilidade fiscal, o risco de colapso está sempre à espreita.
Em 18 de Maio de 2025, o povo português decidiu que esse momento tinha chegado. A erosão do socialismo não começou em 2025, mas o seu colapso tornou-se inegável nesse momento. O eleitorado, exausto de décadas de promessas não cumpridas, de corrupção, de nepotismo, de caciquismo e de benefícios atribuídos pela cor do cartão partidário, fartou-se.
Viu no socialismo em engrenagem maquiavélica de abuso dos dinheiros públicos onde florescem fortunas vergadas pelo peso da falta de vergonha e do ego, do roubo, da incompetência, da pobreza e do declínio que dominou as tristes décadas em que o socialismo esteve no poder. O país que há meio século cantava a liberdade na Revolução dos Cravos encontra-se cativo de um Estado a soldo dos interesses obscuros para uns, mas bem claros para outros. Mas a tragédia do que nos deixaram não se resume ao roubo dos bens públicos. A política generalizada de subsídio, tão típica do socialismo lusitano, criou um eleitorado dependente e manipulável. O Estado transformou o cidadão em refém de favores e não em agente do seu destino.
O resultado foi um modelo baseado em três pilares disfuncionais: gasto público descontrolado, subsídios a perder de vista e protecção institucional de ineficiências e incompetência. Criou a ilusão de progresso social que, na realidade, encobriu o empobrecimento estrutural da economia e a degradação dos serviços.
O SNS tornou-se uma caricatura das suas promessas. Filas intermináveis, profissionais exaustos, mortes à espera de serem evitadas e famílias destruídas. Na Educação, o igualitarismo forçado sacrificou a exigência e o mérito. Mas, preocupados com as ideologias identitárias, destruíram o conhecimento, a autoridade e o pensamento crítico. No mercado de trabalho, a carga fiscal e a rigidez laboral inibiram o empreendedorismo e empurraram gerações de jovens para a emigração, para a subsidiodependência e quem que queria e não conseguiu, para a lista de pobres que já vai em dois milhões de portugueses.
O que vem a seguir
Contra este pano de fundo, o conservadorismo surge como proposta madura baseada em três princípios inegociáveis: liberdade individual, ordem institucional, rigor e ética.
Mas, nestas eleições de Maio, o povo português deu o primeiro sinal claro de que já não quer viver sob as grades de um sistema que sufoca a iniciativa, pune o mérito e perpetua a estagnação.
O fim do socialismo em Portugal é desejável e, sobretudo, inevitável.
Como lembrou Thatcher, “a dignidade do indivíduo é o ponto de partida do mundo livre.” Portugal precisa urgentemente de reencontrar essa dignidade. Chegou a hora de virar a página. De reconstruir um país onde a liberdade individual seja protegida, onde o Estado sirva e não controle e onde trabalhar, empreender e vencer deixem de ser excepções para voltarem a ser regra.
Nas próximas eleições legislativas, o povo português irá enfrentar um momento de rara importância histórica e terá novamente nas mãos a pá de cal. A oportunidade de enterrar, de vez, o capítulo de um ideal falido que escreveu algumas das páginas mais negras da nossa história democrática. O futuro de Portugal depende, mais do que nunca, da coragem de dizer basta e da vontade de escolher liberdade, responsabilidade e verdade.
Nota
Este texto foi publicado no Semanário O Diabo.